#chuva de lágrimas,
Algo estava errado naquela noite. Estavam todos tristes em época de comemoração. Isso não era comum. Na verdade, há um tempo, nada mais era comum. Todos estavam sempre tristes. Eu só não entendia o porquê. Eu estava, mas e daí? Já havia me acostumado com isso. Mas ver que as pessoas que mais me importavam também estavam, era demais pra mim. Pior ainda, era saber que eu não conseguia fazer nada. Por mais que eu tentasse, nada do que fazia melhorava a situação.
Pensei em escrever. Talvez eu achasse uma resposta. Então fui ao computador, sem saber ainda exatamente o que escreveria. Mas tentei desabafar:
“Sinto-me tão inútil. Estou parada, enquanto pessoas morrem na minha frente. Eu quero ajudá-las. Mas nunca sei como. Nunca sei o que dizer ou fazer. Não sei se posso, não sei se devo. Eu grito mil frases que penso ajudar, mas nenhuma delas basta. Todas inúteis sopradas ao vento. E quando me dou conta, são apenas sussurros.
Tenho medo de ficar parada esperando surgir alguma idéia por tempo demais. Sinto que logo será tarde, e que tudo escapará de minhas mãos antes que eu possa segurar. Porém, não sei como impedir. Complexo demais pra mim. Estou sempre tendo que tomar cuidado com as minhas atitudes. Afinal, não quero feri-los mais. Mas não sei como me mover. Tenho medo de acabar pisando em alguém. É difícil curar, quando também se está ferida. Mas eu quero. Eu preciso. Machucarei-me mais ao ver que não fui capaz de impedir que morram. Mas o vento está contra mim. Não consigo correr. Se corro, ele me joga para trás novamente. Tento puxá-los para perto de mim, mas estão pesados demais. E inconscientes, então não virão por livre arbítrio. “
Nenhuma resposta havia surgido, afinal. Acho que já esperava por isso. Só mais duvidas apareciam, cada vez mais.
A chuva não cessava. Eu podia sentir que alguém chorava junto com ela. Mas eu não podia ir até as nuvens e ordenar que parasse. Só podia esperar. Mas, por quanto tempo? Será que a chuva nunca pararia? Ou será que eu seria capaz de pará-la? Não importava, contanto que eu fosse capaz de parar as lágrimas de quem chorava junto dela.
Margerry Martins
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#the prison,
Eu sei que o mundo pode se ajeitar. Sei que tudo pode terminar bem. Mas não é isso que vejo. Não vejo nada se ajeitar, vejo tudo desmoronar ao meu redor. Cada vez, se degradando, piorando. O dia se torna cada vez mais escuro, a luz da lua não existe mais. Não vejo mais pessoas caminharem comigo, porque eu fiquei pra trás. Todos continuam seguindo seu caminho, mas eu parei no tempo, sozinha. E eu vou continuar aqui, pois não tenho força para sair. Às vezes, vejo alguns raios de sol entrar em meu mundo preto e branco, mas a minha dor os faz fugir. A luz tem medo de ser dominada pela sombra, então, sem escolha, ela tem que partir, deixando meu mundo extinto de luz. Então, estou sozinha, no escuro. Vendo seres das trevas tentando me buscar. Eu resisto, não vou. Mas no meu mundo, sou apenas uma criança indefesa com medo da falta de luz que há neste lugar assustador. Eu quero sair. Não quero permanecer aqui. Não gosto deste lugar. É feio, escuro, sem cor, sem vida. Mas algo me prende. Alguma coisa não me deixa sair. Toda vez que eu consigo fugir, eles me acham. Arrastam-me de volta para este lugar em que eu não quero estar. Estou conseguindo escapar mais vezes, e a cada vez que eu escapo, consigo ver mais luzes. Mas depois... Depois que me puxam de volta, o castigo é pior. Cada vez mais insuportável. A dor é incalculável. Então não sei se devo continuar tentando fugir, ou devo me conformar em ficar aqui, encolhida no meu canto depressivo, sozinha. E não adianta gritar por socorro, porque ninguém está aqui. Ninguém irá me ouvir. Estou acorrentada, presa, tentando escapar, agüentando ficar.
Margerry Martins
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#esconderijo de estrelas,
O céu estava nublado naquela noite. Não se podia ver uma estrela sequer. A escuridão das nuvens as cobria. O que será que as estrelas faziam quando ninguém as podia ver? Será que elas ficavam felizes por poderem estar só e fazer o que bem entendem, ou elas ficavam tristes por não ter ninguém para observá-las? Eu tentava me por no lugar delas, mas não importava o quão fundo eu ia no céu escuro do universo, a minha alma sempre parecia estar bem mais a fundo.
Jogaram-na lá, novamente. Era meio estranho, estar de volta, meio desanimador. Mas parecia confortável. Até mais do que da última vez. Talvez eu já tivesse me acostumado com meu novo lar. Que, aliás, não era mais tão novo assim.
Fiquei um tempo parada, olhando para aquele lugar. E a cada cantinho era uma lembrança. Por incrível que pareça, eu também tinha lembranças boas dali. Mas as ruins sempre tinham marcas mais profundas.
Sentei naquele chão frio e empoeirado, pensando quanto tempo iria passar ali dessa vez. Talvez eu não saísse mais. Não adiantaria nada eu me esforçar novamente para sair e depois me tacarem lá novamente.
No entanto, havia uma diferença dessa vez. Estava tudo claro. Eu podia ver a porta. Enxergava claramente a maçaneta. Só bastaria um empurrãozinho para sair daquele buraco sem fundo. Mas eu não queria. Era sofrimento demais, desnecessário. O mundo exterior era muito cheio de problemas e pessoas mal intencionadas. Eu não ia querer sair de lá para ser arrastada para casa novamente. E não era só isso. A saída... Estava fácil demais. Simples demais para ser verdade. Era muito arriscado, então preferi continuar ali.
Sai de perto da porta. Parecia tentadora demais. Fiquei andando em círculos, ainda me torturando com boas lembranças. Fui para a janela, olhar um pouco como estava tudo do lado de fora. Estava escuro ainda. A nuvem negra não queria dar uma trégua para as estrelas. Ainda assim, pude ver algumas pessoas sorrindo do lado de fora. Então me lembrei, de quando eu estava naquela mesma janela, olhando com aquele mesmo olhar maltratado pelas lágrimas, há um ano atrás.
Pude sentir as lágrimas descerem pelo meu rosto. Era doloroso ver tudo aquilo novamente. Lembrar que eu já estive lá, do lado de fora, sorrindo do mesmo jeito que aquelas pessoas.
Senti uma dor, extremamente forte, porém familiar, ao lembrar das pessoas que mais me importavam. Mas o que era mais doloroso, era lembrar que quem havia me tirado de lá, dessa vez era quem me jogava. E eu podia ver que dessa vez ninguém seguraria a minha mão, me levantaria, me mostraria a saída e me diria que do lado de fora era seguro. Até porque, dessa vez, não sei se acreditaria em tais palavras.
Não era mais doloroso estar ali outra vez, todavia era mais desesperançoso. Da última vez, a fuga daquele lugar parecia bem mais impossível, mas eu não perdia a esperança. Eu sabia que alguma hora conseguiria sair dali. Mas dessa vez era diferente. Era muito mais simples de fugir, mas eu estava quase sem esperanças de que fugiria. Talvez eu realmente quisesse permanecer ali. Talvez fosse até melhor para mim.
Era cansativo demais pensar naquilo tudo de novo. Então, exausta, fui para um canto, o mais escuro e mais distante da porta e das janelas. Peguei um pano velho, joguei-o no chão e deitei. Tentei esvaziar a mente, apesar de ser algo complicado de se fazer em um lugar daquele. Não tinha distração. Mas fechei os olhos, desejando não ser surpreendida por nenhum sonho.
Estava prestes a dormir. Já podia sentir os sinais da inconsciência. Até que, eis que de repente, sinto algumas luzes passarem por cima dos meus olhos fechados. Sonolenta, tento ignorar, mas logo lembro de onde estou e abro os olhos, assustada pela possibilidade de algo vivo habitar ali.
Corri meus olhos pelo pequeno quarto sujo e mal iluminado, mas não pude ver ninguém. Comecei a achar que eram apenas meus sonhos deturpados, querendo me pregar peças outra vez.
Deito novamente, e quando olho para cima, vejo uma pequena estrela, quase no seu último fio de luz. Ela parecia se esconder, ou apenas esperar que seu fogo se apague por completo. Confusa, pisco meus olhos com força, ainda na ilusão de estar sonhando. Mas não, aquela estrela estava mesmo ali. E para minha surpresa, não estava sozinha. Foi então que pude ver, no ponto mais alto daquele quarto, várias pequenas estrelas, todas quase sem vida. Aquele lugar devia ser mesmo um abrigo para inválidos. Eu nunca havia me perguntado realmente a origem daquele lugar, nunca procurei saber se já tinham existido outros moradores.
Por um segundo consegui sentir um ponto de felicidade em mim. Fiquei admirada com a beleza das estrelas, porém triste, por ver que depois de tantos anos iluminando o céu, elas iam acabar morrendo em um pequeno quarto escuro entre o céu e a terra. Não era justo! Elas mereciam bem mais do que aquilo!
Fiquei em dúvida se era mesmo aquilo que eu queria para mim. Desistir da vida, de tudo o que eu lutei para conseguir. Tudo ia acabar sendo em vão. Todo o meu esforço para uma vida digna, estaria sendo inútil. Se eu mesma não me desse conta de que eu não merecia aquilo, de que adiantaria as ajudas e os conselhos? Talvez tenha sido por isso que me jogaram novamente ali. Eu estava-me auto-invalidando. E para que isso? Talvez eu não devesse sair dali, antes de ter aprendido.
Eu estava muito confusa ainda. Não sabia o que pensar. Estava tentando arranjar apenas uma solução, mas sempre saiam varias que não davam em nada. Então desisti. Iria tentar resolver outro dia, naquele momento, só queria admirar o único e belo brilho das estrelas. Então tornei a deitar, sem medo de que algum sonho me alcançasse.
Margerry Martins
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