sábado, 1 de dezembro de 2012

#Lily,


       Não há ninguém na noite fria. Ninguém à quem as mãos segurar. Lily está curvada sobre a pedra, abraçando seus joelhos, o olhar atento, com medo... O vento zumbindo entre as árvores, que balançam vorazes e assustam a pobre menina. Ela encolhe-se, como quem tenta entrar em si para fugir da realidade. Mas ela está sozinha e não há como fugir.
Lily ouve o som de galhos se partindo, passos se aproximando, como uma fera que chega à espreita da noite. Bem de leve o som se aproxima e o terror a consome por completo. Lily levanta-se num ato de desespero, corre por entre as árvores, ouvindo os ruídos da perseguição por trás dela. Galhos cortam seu rosto e num descuido, ela tropeça. Apavorada, engatinha para trás da árvore mais próxima e lá encolhe-se aos prantos. O som se aproxima mais e mais, lentamente. Lily sente que há algo a sua frente, porém está assustada demais para arriscar olhar. Então ela ouve o que parece um soluço, ou uma arfada de alívio. Sente mãos tocá-la. Mãos suaves, não de monstro. 
- Vai ficar tudo bem, querida.
Lily olha e reconhece o rosto que há dois dias ansiava por rever. Sentir o toque daquelas mãos que sempre garantiam segurança. Sua mãe, com aparência tão cansada e machucada quanto a da menina, a segurou nos braços e apertou forte. Não foi somente um abraço, foi um aviso de que nunca mais iria deixá-la sozinha novamente e que sempre estaria ali para protegê-la. 

Margerry Martins

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

#Fundo do poço,

       Imagine um poço. Em cima dele, tem uma corda de aço, bem fina. Estou passando por cima dela. Quanto mais eu fico em pé, ou ando nela, mais meus pés se cortam e doem. Eu posso continuar andando e talvez chegar ao fim, ou posso cair no fundo do poço e meu esforço ter sido inútil. Então talvez seja melhor desistir agora... Eu não vejo o fim. Não sei se estou na metade do poço, ou se ainda estou no começo. Talvez então seja melhor me jogar no fundo e acabar com a dor. Estarei poupando tempo, sofrimento. Evitarei talvez falsas expectativas... A morte é fácil, indolor. Difícil é lutar pela vida. Enfrentar um problema, sabendo que logo vem outro pela frente e que isso não tem fim. Desistir é só um passo. Viver é andar sem olhar por onde anda. Então para pessoas fracas como eu, a melhor escolha é desistir. Pois de que adianta vencer um desafio agora? O próximo será muito pior. Vai chegar uma hora em que eu não irei aguentar mais. Pode ser hoje ou amanhã, não importa. Mesmo para os que escolhem viver, há um fim. Nada é para sempre. Então, se para mim não faz sentido a luta, nunca fará sentido minha existência.

Margerry Martins

domingo, 9 de setembro de 2012

#6 meses,

      De novo chove dentro de mim. Os dias passam, um sorriso ou outro aparece e, enquanto isso, minha quota vai aumentando. Eu nunca entendi muito bem isso de "karma", mas parece que a cada ano que passa essa palavra faz mais e mais sentido para mim.
Como todo ano, agosto chega incerto, brincando comigo de rir ou chorar e, quando parte, deixa manchada em mim minha dívida por felicidade.
Setembro chega se arrastando e, com ele, a velha dor que me avisa "Cuidado! Algo irá acontecer." E quanto mais esta dor dura, mais forte fica essa angústia por esperar pelo pior.
Todos começam a virar o rosto para mim novamente. Talvez uma das piores coisas do mundo seja ser ignorada, porém já me acostumei com isso. Como já me acostumei a viver em "períodos". Talvez por isso eu tenha tanta certeza de que nada é para sempre, já que nunca vi algo durar muito. Ou, para ser mais exata, durar mais de 6 meses.

Margerry Martins

quinta-feira, 19 de julho de 2012

#Insana,


Isso está pulsando dentro de mim. O que outrora era pele e carne em decomposição, o que era somente corpo vazio, alma vagante, sem vida, o que houve afinal? Não é vida que habita aqui dentro. Isso pulsa dolorasamente, rasgando minha pele e tudo o que há em mim, ou o que apenas resta. Mas tudo não passa de dor... Isso está me consumindo, pouco a pouco, eu sinto. Me maltratando, enquanto eu corro, sem rumo, em direção a um trágico destino. Você se afasta, cada vez mais, eu posso ver. Estou lhe empurrando para longe. E não há mais nada que eu possa fazer, pois não há sanidade em mim. Nada além de um medo insano e sem propósito.
Você não  temes a dor? Mas porfavor, não se aproxime. Não há beleza em um corpo decadente a beira da loucura. Não quero que veja a imagem do que me tornei. Algo tão sem propósito e moral. Então porfavor, se afaste.
Mas onde estas indo? Não me deixe, não me abandone com a minha loucura, isso não faz sentido, só me mata. Não vá, eu não quero ficar aqui. Tenho medo, apenas medo. Medo de mim e dessa dor que me inunda a cada dia, a cada minuto, insanessendo cada atomo daquilo que um dia chamei de corpo. Eu não posso mais aguentar! Me mate! Eu não quero morrer. Me mate! Acabe com esse tolo sofrimento, pois não há sentido nisso tudo. E o que estás fazendo? Por que me feres desse jeito? Não deverias você me ajudar? Porque não me ajudas? Você está me matando! Me pordoe, mas não posso aguentar aquilo que só me fere. Essa vida gasta que suga demônios em anjos. Essas provações que nos empurram para decadência. Perdão, meu amor, se sou fraca, mas isso tudo é louco demais para mim, e eu não consigo mais aguentar. Então deixe minha essência correr, e drenar essa dor, e essa loucura. Deixe isso ser levado para longe de mim. Deixe-me partir para onde não terei mais de suportar tanto sofrimento. Libertai-me!

Margerry Martins

sábado, 25 de fevereiro de 2012

#Pequena Flor,

Deixa que escorra
estas gotas de orvalho dos teus olhos.
Deixe a dor lhe inundar minha pequena flor.
Deixe que chova dentro de ti
e então respire fundo e feche os olhos.
Não tenha medo.
Deixa a vida em ti correr,
de ti sair.
Faça tuas últimas preces,
minha pálida flor,
e deixa que a dor em ti se vá.
O medo foge.
Enquanto te libertas.

Margerry Martins

sábado, 11 de fevereiro de 2012

#Presa,

Suas garras estão me perfurando. Meus olhos estão enchendo de sangue. Será que você não vê o que está fazendo?  Você está me destruindo. Meu coração está gritando, querendo fugir como o alce do leão. Mas você continua me perseguindo, atormentando meus pensamentos. Meu corpo treme. Por que você está fazendo isso? Eu nunca lhe fiz nada. Eu sou só mais uma de suas presas, afinal? Por que eu? Por que eu? E nesse meu estupor de medo e egoísmo, eu não posso gritar, não posso correr. Estou assistindo você vir, só esperando ter meu coração arrancado. Justo agora que ele estava cicatrizando... Por que você faz isso comigo? Você não vê que está me matando? Me sufocando? Estou perdendo o ar. O sangue está descendo da minha boca... Dos meus olhos... Por que estou com medo? Minha vida nunca teve sentido. Mas uma luz, talvez. Eu via algo... Deveria saber, não há arco Iris depois da minha chuva... E sim tempestade a cada vez que o arco Iris ameaça aparecer.

                                    Margerry Martins                                           

domingo, 22 de janeiro de 2012

#Sem nexo,

No papel rabiscado,
           palavras sem nexo,
Eu leio e releio
                                                       tentando entender o sentido disso tudo,
                                                    como se tivesse algum.
Mas não importa quantas palavras eu escreva,
                quantos papéis eu rabisque. Não importa quantos textos
eu comece, o quanto eu tente me expressar.
                                  Está tudo embaralhado.
De cabeça para baixo.
                   São palavras lançadas,
memórias jogadas
em textos que vão terminar como esse,
                                     sem sentido no final.

                                                                              Margerry Martins