Sentada a beira mar, no alto das pedras, sentia-se livre. O vento tocava seu rosto. As gotas das ondas que se quebravam próximo a ela, molhavam levemente seu corpo, e ela sentia-se em paz, como há tempos não havia sentido. Cantava junto ao som do mar, uma música que sobre o mar dizia. Fechava os olhos e os abria devagar, com medo de acordar em seu quarto sem portas e sem janelas, o qual ela desejava nunca mais voltar. “Isso é real?” Ela se perguntava. E a brisa do mar lhe respondia.
Desceu das pedras e caminhou sobre a areia. Sentia seus pés afundarem em grãos e em sonhos. Tocou no mar com os pés. Sentiu seu corpo flutuar por sobre ele. Sua mente navegou por baixo d’água. Pode ver cada ser que havia ali, mesmo com os olhos fechados.
Respirou aquele ar do mundo. O ar natural. Sabia que por mais que indesejável, teria que voltar à sua cela. Perpetuou a imagem daquilo dentro de si e foi andando segurando o coração na mão. Parou onde julgava ser um lugar seguro e cavou sete palmos na areia fina. Pôs seu coração bem no fundo e o enterrou. Ela estaria sempre ali, por fim. Enterrada à sete palmos. Seu coração, por mais que ela quisesse que fosse livre, ao menos ficaria em um lugar que realmente amasse. Não em sua cela gélida ou seu corpo mórbido.
Ao passar do tempo, estava ela de novo naquele lugar frio, sem vida. Encolhida com a cabeça sobre as pernas e com um sorriso no rosto. Sua alma estava morta. Seu corpo vazio agonizava. Mas seu coração pulsando por baixo da areia e a imagem que guardara dentro de si ainda a mantinham respirando. Mantinham-na sorrindo. E assim ela seguia, vivendo de lembranças, adormecendo a agonia, e ignorando todo dia o vazio que nela havia.
Margerry Martins